Com a divulgação da relação entre o zika vírus e a
microcefalia, dezenas de questionamentos e afirmações - falsas e
verdadeiras - passaram a circular. Essas informações tiraram o sono de
mães, pais e líderes nos últimos meses.
Mas a relação da malformação com o vírus vai além do serviço médico. Envolve ainda a questão social e saneamento básico.
Para sanar algumas dúvidas, a Pastoral da Criança conversou
com o Ministério da Saúde, com o epidemiologista e pesquisador da da
Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Dr. César Gomes Victora, e com
Francisca Maria Andrade (Tati), especialista em Programas no UNICEF
Brasil, e apresentou algumas perguntas sugeridas pelos líderes. Veja as
respostas:

Ministério da Saúde
O zika vírus realmente é o responsável pelos recentes casos de microcefalia nas crianças?
A relação entre o zika e a microcefalia foi reconhecida e
anunciada pelo governo brasileiro em novembro de 2015, quando o vírus
foi identificado em amostras de sangue e tecidos de um bebê com
microcefalia e também no líquido amniótico de duas gestantes. Desde
então, diversas outras evidências foram encontradas, como vermelhidão na
pele durante o primeiro trimestre da gravidez – que é um dos sintomas
do zika - em grande parte das mulheres que tiveram bebês com
microcefalia nos estados da Bahia, Paraíba e Pernambuco.
Em abril de 2016, o Centro de Controle e Prevenção de
Doenças Transmissíveis (CDC) dos Estados Unidos anunciou a confirmação
da relação entre o zika e a ocorrência de microcefalia em bebês cujas
mães foram infectadas pelo vírus. O estudo realizou uma revisão rigorosa
das evidências já existentes e concluiu que o zika é a causa da
microcefalia e outros danos cerebrais identificados em fetos. Para
embasar o estudo norte-americano, foram analisadas pesquisas da
comunidade médica e científica de diversos países, entre eles o Brasil,
que é pioneiro no estudo do vírus zika associado à microcefalia. O CDC é
parceiro do Brasil nas investigações, como parte do esforço mundial
para as descobertas relacionadas ao tema.
Além da picada do mosquito, há outras formas de contaminação?
Até o momento, a única forma comprovada de transmissão do
vírus é por meio da picada do Aedes Aegypti contaminado. Há evidências
de que o vírus também possa ser transmitido de pessoa para pessoa, por
meio de relação sexual. Por isso, o Ministério da Saúde, assim como a
Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda às gestantes o uso de
preservativo em todas as relações sexuais.
O perigo para a gestante é só no primeiro trimestre da gestação ou durante a gestação toda? Há várias informações circulando sobre a causa desse surto de microcefalia no Brasil, existe a possibilidade dele ter sido causado por inseticidas?
O estudo de caso-controle realizado na Paraíba mostra,
preliminarmente, que mães que tiveram o vírus zika no primeiro trimestre
da gestação apresentaram maior probabilidade de terem crianças com
microcefalia. O Ministério da Saúde, em parceria com o governo da
Paraíba e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças Transmissíveis
(CDC) dos Estados Unidos, continua com a análise das amostras de sangue
coletadas nas mães e bebês paraibanos. Somente após esta fase, os
resultados finais serão divulgados. O resultado inicial do estudo,
apresentado em João Pessoa (PB), também não encontrou nenhuma associação
da microcefalia com a exposição de produtos como inseticidas, por
exemplo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) também publicou uma
nota informativa esclarecendo rumores sobre o vírus zika e a
microcefalia. Entre os boatos citados estão a possível relação da
malformação em decorrência do uso de vacinas, larvicidas, mosquitos
geneticamente modificados, entre outros. A organização é taxativa em
afirmar que não há evidências científicas que possam relacionar os casos
de zika e de microcefalia com o uso desses produtos.
Recentemente uma vacina francesa contra a dengue chegou ao Brasil. Existe a possibilidade de ser criada uma vacina contra o zika vírus? As grávidas poderão tomar?
Em janeiro de 2016, o Ministério da Saúde se reuniu com o
Instituto Butantan para discutir parcerias internacionais para o
desenvolvimento de uma vacina contra o vírus zika. O Butantan é
referência nacional na produção de vacinas e soros. Outros dois
laboratórios públicos, o Instituto Evandro Chagas, que fica no Pará, e o
Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos(Bio-Manguinhos), do Rio de
Janeiro, ambos vinculados ao Ministério da Saúde, também estão em busca
de parcerias com instituições científicas para a futura produção de uma
vacina no país contra a doença.

Dr. Cesar Gomes Victora
Dr. Cesar Gomes Victora, pesquisador, professor da Universidade Federal de Pelotas e parceiro da Pastoral da Criança.
Antes da divulgação na grande mídia pela possível ligação com o zika vírus, já havia notificações de microcefalia no Brasil? Que outras causas podem gerar esta malformação?
Havia menos de 160 casos relatados por ano no Brasil até
2015. As principais causas eram infecções maternas, como rubéola,
toxoplasmose e sífilis. Havia também causas genéticas.
Em relação aos parâmetros que definem a suspeita, a confirmação e a incidência de casos de microcefalia, pode-se dizer que há uma diferença da situação no Brasil, se comparada com outros países? Por aqui há mais casos?
Sem dúvida houve um aumento enorme devido à epidemia de
zika. O Brasil tem mais casos hoje do que em qualquer outro país do
mundo. Também é muito preocupante termos muitas crianças com tamanho
normal de cabeça, mas que apresentam lesões cerebrais devido ao fato de
que suas mães foram infectadas pelo vírus. Ou seja, a microcefalia
representa apenas um certo percentual (não sabemos exatamente quanto) da
síndrome de zika congênita.

Francisca Maria Andrade
Francisca Maria Andrade (Tati), especialista em Programas no UNICEF Brasil
Enquanto ainda há muitas perguntas sem resposta sobre a possível ligação entre o vírus zika e a microcefalia, é certa a necessidade de prevenção e continuidade das ações de combate ao mosquito Aedes aegypti. Neste aspecto, pode-se levar em consideração também as condições de saneamento básico da população, especialmente das comunidades mais pobres?
Sim, a falta de abastecimento de água e de coleta de lixo adequados contribuem para a alta incidência de casos de dengue e outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti,
como zika e chikungunya. A falta ou irregularidade no abastecimento de
água faz com que a população acumule água em tambores e outros
reservatórios que, se não forem bem tampados, transformam-se em
criadouros de mosquitos. No caso do lixo, qualquer recipiente, mesmo bem
pequeno, como uma tampinha de refrigerante e outros como pneus velhos,
que fiquem a céu aberto, podem servir para a proliferação do Aedes.
Por outro lado, é também uma questão de educação, pois é possível ter
uma boa higiene do ambiente domiciliar mesmo com poucos recursos
financeiros. Mas há pessoas com uma boa situação financeira que permitem
o surgimento de criadouros em suas casas e ainda dificultam a entrada
dos agentes de endemias.
O mais importante é a prevenção,
independente da condição ou local no qual a pessoa vive. E a forma mais
eficaz de prevenção é eliminar o mosquito transmissor. E isso deve ser
entendido como um trabalho de todos, ou não vai dar resultado.
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A microcefalia e o zika vírus também devem ser tratados como uma questão de desigualdade social?
Com certeza. Apesar do mosquito poder
picar qualquer pessoa, em vários lugares da cidade e do campo ele está
mais presente onde há piores condições de saneamento básico, ou seja nas
comunidades mais pobres. As desigualdades sociais do nosso país têm
reflexos negativos em vários indicadores sociais, especialmente da
saúde. Para que as intervenções tenham melhores resultados é importante
também garantir que sejam respeitados os direitos dos pacientes
acometidos com zika e das famílias que têm crianças com microcefalia.
Este material faz parte da 4ª edição da Revista Pastoral da Criança. Acesse e conheça!
Fonte: Pastoral da Criança